ENTREVISTA • Senador Pedro Chaves

"3ª Revolução Industrial exige conhecimento sistematizado"

Relator da reforma do Ensino Médio diz que nova lei surgiu a partir de debate acalorado e teve trâmite democrático

A vontade de contribuir com mudanças fundamentais para o ensino no Brasil fez o senador Pedro Chaves (PSC) aceitar o cargo de relator da lei que propõe um novo Ensino Médio. Segundo ele, as medidas facilitam a formação de professores e a atuação deles no curso técnico, levando referencial prático para a sala de aula.

O senador defende que a reforma atendeu a demandas fundamentais, mas ainda é preciso estimular a articulação entre educação, assistência social, cultura, esporte e aplicar políticas públicas de qualidade, na intenção de ampliar o atendimento, melhorar a qualidade e reduzir as desigualdades entre escolas e redes de ensino público.

- Como o senhor acredita que a reforma vai promover a qualidade do ensino no Brasil? Pedro Chaves - Há décadas defendo mudanças profundas no Ensino Médio e no Fundamental. Todos sabem que os países que continuam crescendo economicamente e socialmente investiram maciçamente em educação de qualidade. A Terceira Revolução Industrial, que está em andamento, exige das pessoas o domínio do conhecimento sistematizado. No Brasil há aproximadamente 1,7 milhão de jovens de 15 a 17 anos que deveriam estar cursando o Ensino Médio, mas não estão matriculados. Segundo o Observatório do PNE (Plano Nacional de Educação), atualmente apenas 61,4% dos jovens dessa idade cursam essa etapa da educação básica. Vale lembrar ainda que 82% dos jovens na idade entre 18 e 24 anos estão fora do ensino superior, sem contar outro grupo preocupante para o qual os horizontes são ainda mais nebulosos. Falo nesse caso dos que não trabalham nem estudam, da “geração nem-nem”. A nação que quer gerar emprego, renda e qualidade de vida tem que investir em educação de qualidade. Eu aceitei a Relatoria da Reforma do Ensino Médio porque vi a oportunidade de contribuir com mudanças importantes para o ensino brasileiro. Só com educação de qualidade vamos mudar o Brasil. A qualidade do ensino no país depende de mais inclusão e avanços na metodologia. - Que pontos da reforma o senhor considera fundamentais nesse processo? Pedro Chaves - Quanto às contribuições, ressalto que tudo nasceu de um trâmite muito democrático, com acolhimento de opiniões, queixas, e participação das 566 emendas apresentadas no Congresso. Nem todas foram incorporadas, apenas 135. Chegamos à melhor proposta porque o debate acalorado do processo determinou a versão final, quando retiramos a exigência de que apenas em universidades e institutos superiores de educação se faça a formação de docentes em nível superior para atuar na educação básica. Essa medida é importante, porque trata-se de adequar a norma à realidade e dinamiza os processos iniciais de formação docente. Para atender a formação do aluno em várias dimensões, também vejo como importante a retomada da obrigatoriedade da Educação Física e da Arte como componentes curriculares do Ensino Médio.

Saliento ainda a inclusão dos profissionais com notório saber na lista dos que vão atuar na formação técnica e profissional, pois é inegável que agentes assim podem contribuir de forma positiva ao ambiente escolar, na medida em que trazem o referencial prático e dominam as competências que são transmitidas na sala de aula. Estudos indicam que existe no país um grande déficit de professores devidamente preparados. E a maior lacuna está na parte física: do total de 27.886 professores que lecionam a matéria, 19.161 atuam sem formação adequada. Esse é um número significativo, que traduz bem a qualidade do nosso ensino. Na reforma, aperfeiçoamos o texto original, possibilitando que os profissionais graduados, detentores de formação pedagógica de no mínimo 180 horas, possam também atuar no magistério. No meu ponto de vista, falta superarmos no Brasil a falsa dicotomia entre o saber e o fazer, a dissociação infrutífera entre a academia e o mundo do trabalho.

- Na sua opinião, que pontos da educação brasileira precisam de mais atenção e melhoria? Pedro Chaves - A reforma atendeu a demandas fundamentais, só que ainda há muito para evoluirmos no real cumprimento das demais metas desse setor. O novo modelo favorece isso, e tenho muito orgulho de ter feito parte dessa revolução. Temos que estimular a articulação entre educação, assistência social, cultura e esporte. Essa transversalidade garante direitos da criança e do adolescente e combate diretamente os problemas do nosso país com as questões de vulnerabilidade social. Com políticas públicas de qualidade será possível ampliar o atendimento, melhorar a qualidade e reduzir as desigualdades entre escolas e redes de ensino público.